quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Quaresma: Tempo de Conversão




O termo quaresma origina-se do latim “Quadragésima die Christus pro nobis tradétur” (Daqui a quarenta dias Cristo será entregue por nós), abreviação de quadragésima. Relembra-nos também os quarenta dias que Jesus passou no deserto orando e jejuando (Mt 4, 1-2). Trata-se de um tempo litúrgico que tem início na quarta-feira de cinzas e se estende até a quinta-feira santa (missa do lava-pés); entretanto, as penitências continuam até domingo. Sua cor litúrgica é o roxo, significando luto e penitência, e são suprimidos os cantos de alegria: “Glória” (exceção para eventuais solenidades) e o “Aleluia”, os quais só serão cantados novamente na missa da Vigília Pascal.

 É um período de forte apelo à conversão, palavra oriunda do termo metanoia, que, por sua vez, tem raiz no grego e significa mudança de rumo, de direção, transformação espiritual. De fato, todos os dias somos chamados à conversão, a fazer um exame de consciência (reflexão) sobre nossa vida e mudar aquilo que necessita ser mudado (é o que chamamos também de combate espiritual), retornando ao caminho de Deus; contudo, a quaresma é o tempo especial e favorável para tal atitude, em que a Igreja se prepara visando a celebrar menos indignamente a Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Quaresma é também tempo de penitência. “A palavra penitência tem dois significados. Em primeiro lugar, temos a virtude da penitência, a virtude sobrenatural que nos leva a detestar os nossos pecados por um motivo que a fé nos dá a conhecer, e ao propósito consequente de não ofender mais a Deus e de desagravá-lo por isso.” [1] O outro significado refere-se ao Sacramento da Penitência (Reconciliação ou Confissão), ao qual devemos recorrer, no mínimo uma vez por ano, para sermos perdoados de nossos pecados e nos apresentarmos à comunhão eucarística.

“Há três coisas, meus irmãos, três coisas que mantém a fé, dão firmeza à devoção e perseverança à virtude. São elas a oração, o jejum e a misericórdia.” [2] Nesse trecho, São Pedro Crisólogo nos exorta a vivenciar três modos de penitência interior para a quaresma: o jejum, a oração e a caridade, “que exprimem a conversão com relação a si mesmo, a Deus e aos outros” [3]. Todos os dias quaresmais, exceto os domingos, são dias de penitência.

“A oração define-se como a elevação da mente e do coração a Deus.” [1] Oportunidade de voltarmo-nos para Ele cheios de gratidão e pedirmos pelos familiares e amigos, mas também pelos inimigos, pelos que sofrem com a injustiça social e com a falta de amor. Para nós, católicos, não há oração mais sublime do que a Santa Missa; portanto, é um bom momento para aumentar a frequência, por exemplo, ir à missa outro(s) dia(s) além dos domingos e demais dias de preceito, e a fidelidade (esforçar-se para não chegar atrasado nem sair mais cedo, procurar concentrar-se no que está sendo dito, aprender mais sobre a missa, entre outras formas). Ademais, é aconselhável a adoração ao Santíssimo Sacramento, a oração do Santo Terço e a leitura meditada da Sagrada Escritura com mais frequência. Lembre-se de que a oração pede também o hábito e a perseverança.

O jejum é uma disciplina mais relacionada à alimentação, contribui para adquirirmos o domínio sobre nossos instintos e a liberdade de coração. De fato, só quem domina a si mesmo pode-se dizer livre, quem não é escravo e refém de seus impulsos e desejos, mas sabe controlá-los. “A primeira e indispensável penitência quaresmal é no tocante à comida e à bebida: sem renúncia a algum alimento não há prática quaresmal! Cada um deve escolher uma pequena prática penitencial para este tempo” [5]. O jejum é obrigatório, no mínimo, na quarta-feira de cinzas e na sexta-feira da Paixão para pessoas entre 18 e 59 anos (inclusive), os maiores de 14 anos estão obrigados já a fazer algum tipo de abstinência (refrigerante ou doce, por exemplo). De fato, todas as sextas-feiras do ano, conforme prescrição do Código de Direito Canônico, são dias de penitência obrigatórios, em que o fiel deve abster-se de carne ou outro alimento indicado pela sua Conferência Episcopal; no Brasil, a CNBB deixa a cargo do fiel a escolha do alimento. O jejum nos ensina que precisamos especialmente de Deus, muito além de qualquer coisa ou pessoa, pois Ele é que nos sustenta.

“A caridade é a virtude teologal (divina) pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas (...) e a nosso próximo como a nós mesmos” [4]. Como sugestão, podemos praticar a caridade seguindo as obras de misericórdia corporais e espirituais. As corporais são 1. Visitar e cuidar dos enfermos; 2. Dar de comer a quem tem fome; 3. Dar de beber a quem tem sede; 4. Dar pousada aos peregrinos; 5. Vestir os nus; 6. Redimir os cativos; 7. Enterrar os mortos. Por sua vez, as obras de misericórdia espirituais são 1. Ensinar a quem não sabe; 2. Dar bom conselho a quem dele necessita; 3. Corrigir a quem erra; 4. Perdoar as injúrias; 5. Consolar o triste; 6. Sofrer com paciência os defeitos do próximo; 7. Rogar a Deus pelos vivos e pelos mortos. “O que a chuva é para a terra, é a misericórdia (caridade) para o jejum. Por mais que cultive o coração, purifique o corpo, extirpe os maus costumes e semeie as virtudes, o que jejua não colherá frutos se não abrir as torrentes da misericórdia” [2]. Normalmente, a prática da caridade é resumida na esmola; todavia, nem só com dinheiro se pode ajudar o próximo, mas também com outras formas de ajuda material e mesmo com uma simples oração, deve-se buscar o correto discernimento de como ajudar, conforme a situação concreta e as possibilidades de cada um. Tenhamos o especial cuidado de não submetermos as pessoas ao nosso julgamento humano repleto de preconceitos.

Por fim, a quaresma é tempo de misericórdia, ou seja, tempo de aproximar as nossas misérias do coração de Deus, para que assim elas sejam purificadas e vencidas. Além de receber, devemos também ofertar a nossa misericórdia aos irmãos, buscando a reconciliação com o próximo.


                   Leia aqui a mensagem do Papa Bento XVI para a quaresma de 2012.

A todos, meus votos de uma Santa Quaresma!

[1] Leo J. Trese. A fé explicada. Editora Quadrante.
[2] São Pedro Crisólogo, bispo do século IV.
[3] Catecismo da Igreja Católica, nº 1434.
[4] Catecismo da Igreja Católica, nº 1822.
[5] Dom Henrique Soares da Costa. Quaresma: um caminho a ser feito em direção a Cristo.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A relação entre estudo teológico e vida interior




              Eis um belo texto, que nos inspira a buscar o estudo, a oração e uma vida coerente! Deus vos abençoe e Maria vos proteja!

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Costuma-se separar demais o estudo da vida interior, e não se observa o bastante a belíssima gradação que se encontra no cap. 48 da Regra de São Bento: “lectio, cogitatio, studium, meditatio, oratio, contemplatio”. Santo Tomás, que recebeu sua primeira formação dos beneditinos, conservou esta gradação admirável na sua Suma Teológica, no lugar onde trata da vida contemplativa (IIa. IIae. q. 180, a. 3).

Ora, dessa excessiva separação entre estudo e oração, seguem-se muitos defeitos: os sacrifícios e as dificuldades que não raro se encontram nos estudos, não são mais considerados como uma penitência salutar, nem são adequadamente ordenados a Deus; assim, por vezes sobrevêm fadigas e fastio, sem que delas se tire nenhum fruto religioso.

Por outro lado, por vezes se encontra no estudo o deleitamento natural, que poderia ser ordenado a Deus, em espírito de fé viva, mas que não raro permanece puramente natural, sem qualquer fruto para a alma religiosa.

Santo Tomás fala desses dois desvios na IIa IIae, q. 166, onde trata da virtude da estudiosidade ou da aplicação aos estudos, que deve ser governada pela caridade, contra a curiosidade desordenada e contra a preguiça, a fim de que se estude o que convém, como convém, quando e onde convém e, sobretudo, para que se estude com o espírito e o fim mais apropriado para melhor conhecer o próprio Deus e para a salvação das almas.
   
Mas, para evitar os defeitos acima, opostos um ao outro, é bom lembrar-se de como nosso estudo intelectual pode ser santificado, considerando, em primeiro lugar, o que recebe a vida anterior do estudo retamente ordenado; em seguida, e por outro lado, o que o estudo da Sagrada Teologia pode cada vez mais receber da vida interior. Na união destas duas atividades de nossa vida, verifica-se o princípio: "Causae ad invicem sunt causae, sed in diverso genere"; há entre elas uma relação de mútua causalidade e de prioridade verdadeiramente admirável.

O que a vida interior deve ao estudo

A vida interior, pelo estudo da teologia, é preservada sobretudo de dois graves defeitos: subjetivismo, na piedade, e particularismo.
  
O subjetivismo, no que toca a piedade, hoje comumente chamado de "sentimentalismo", é uma certa afetação de amor, desprovida do verdadeiro e profundo amor de Deus e das almas. Este defeito provém do fato de prevalecer na oração a inclinação natural da nossa sensibilidade, conforme a índole de cada um. Prevalece alguma emoção da sensibilidade que, por vezes, é expressa com algum lirismo, mas que carece do sólido fundamento da verdade. (...)
  
Ao contrário, nossa vida interior deve estar fundada na verdade divina. Isto, de certo, já ocorre pela própria fé infusa, fundada na autoridade de Deus que a revela. Mas o estudo bem ordenado em muito ajuda a bem conhecer em que propriamente consistem as verdades da fé, independentemente de nossas disposição subjetivas. O estudo ajuda sobretudo a formar uma reta noção sobre as perfeições de Deus, sobre Sua bondade, misericórdia, amor, justiça e ainda sobre as virtudes infusas, sobre a verdadeira humildade, religião e caridade, não permitindo a mistura de emoções não fundadas na verdade. Por essa razão, Santa Teresa, como a própria afirma em seu Livro da Vida, capítulo 13, muito recebeu das conferências dos bons teólogos, para que não se desviasse da senda da verdade nas enormes dificuldades.
    
Nosso estudo bem orientado liberta nossa vida interior, não apenas do subjetivismo, mas também do particularismo, que provém do influxo excessivo de certas idéias, particulares de algum tempo ou região, que após uns trinta anos já se mostrarão obsoletas. Em tempos passados, prevaleceram certas idéias ou filosofias que hoje já não agradam; assim ocorre a cada geração; surgem sucessivas opiniões e admirações que passam com a figura do mundo, enquanto permanece a palavra de Deus, da qual o justo deve viver.
  
Assim, o estudo bem ordenado verdadeiramente conserva, na vida interior, a devida objetividade, sobre todos os desvios da sensibilidade, e a universalidade, fundada naquilo que sempre e por toda a parte a Igreja ensinou. E assim, cada vez mais percebemos que as verdades mais altasmais profundas e mais vitais nada mais são que as verdades elementares do Catolicismo, desde que profundamente examinadas e tornadas objeto de quotidiana meditação e contemplação. (...)

É coisa de máxima importância viver profundamente destas verdades, sem nenhum desvio do subjetivismo, sentimentalismo ou particularismo de qualquer tempo ou região. Nisso, também, nossa vida interior tem muito a receber do bom estudo; e este é o ótimo fruto da penitência que se encontra nas dificuldades do estudo, e fruto muito mais precioso do que o deleitamento natural, que pode existir no labor intelectual não suficientemente santificado ou ordenado a Deus. (...)
  
A vida interior, portanto, é, pelo estudo, preservada de muitos desvios, para que permaneça objetiva, e verdadeiramente fundada na doutrina que sempre e em toda parte se transmitiu. Mas há, por outro lado, um influxo da vida interior no estudo da Sacra Teologia.
  
O que o estudo da teologia deve à vida interior
  
Não raro, este estudo fica sem vida, quer na parte positiva, quer na especulativa e abstrata. Muitas vezes falta nele o espírito alto e o influxo das virtudes teologais (fé, esperança e caridade) e dos dons da inteligência e da sabedoria. Por conseqüência, o saber teológico muitas vezes não é aquela "ciência saboreada" da qual fala Santo Tomás na primeira questão da Suma Teológica. 
   
Não raro nossa mente estaciona nas próprias fórmulas dogmáticas, na sua análise conceitual, nas conclusões deduzidas, e não costuma, por essas fórmulas, penetrar no mistério da fé, para saboreá-lo espiritualmente e para dele viver.
  
Convém dizer isto porque muitos santos que não puderam fazer tantos estudos como nós, penetraram muito mais profundamente nestes mistérios da fé. Assim, São Francisco de Assis, Santa Catarina de Sena, São Bento-José Labré e muitos outros que certamente não fizeram de modo abstrato e especulativo a análise conceitual dos dogmas da Encarnação, da Redenção, da Eucaristia, nem deduziram as conclusões teológicas que conhecemos e que, no entanto, mais profundamente e com santo realismo tiraram destes mistérios vida abundante.
  
(...)
        
Assim, se crescesse diariamente nossa vida interior, exerceria uma influência muito fecunda em nosso estudo, que se tornaria mais vívido a cada dia. 
  
O estudo e a vida de oração, pois, são causa um do outro em bela harmonia.

Qual é o fruto deste influxo mútuo?
      
(...)
                
Se, verdadeiramente, em espírito de fé, oração e penitência, nossa mente se dedicasse ao estudo da teologia, então a nós se aplicariam estas palavras de Santo Tomás (IIa IIae 188, 6): "A doutrina e a pregação devem ser derivadas da plenitude da contemplação", até certo ponto, como a pregação dos Apóstolos depois de Pentecostes.
   
A Teologia, assim compreendida, é de grande importância para o ministério das almas. Ela própria forma profundamente o espírito para julgar sabiamente, conforme a mente de Cristo e da Igreja; para exortar as almas à perfeição segundo princípios verdadeiros, p. ex., para mostrar que, a par do preceito supremo: "Ama teu Deus de todo o teu coração..." todos cristãos devem tender à perfeição da caridade, cada qual conforme a medida de sua condição.
  
E não podemos chegar a esta plena perfeição da vida cristã sem vivermos profundamente dos mistérios da Encarnação redentora e da Eucaristia, sem penetrar neles e sem os saborear pela fé ilustrada pelos dons de inteligência e sabedoria. Para isto, é de grande ajuda, com efeito, o estudo da teologia, desde que retamente ordenada, não à nossa satisfação, mas ao maior conhecimento de Deus e à salvação das almas.
  
Assim, mais e mais poderão se verificar em nós aquelas belas palavras do Concílio Vaticano (Denz. 1796), que encerram como que uma definição da Sacra Teologia: "A razão ilustrada pela fé, quando busca cuidadosa, pia e sobriamente, alcança, por dom de Deus, alguma inteligência, e muito frutuosa, dos mistérios, ora por analogia do que naturalmente conhece, ora pela conexão dos mistérios mesmos entre si e com o fim último do homem...".
  
O estudo da sagrada teologia, por vezes difícil, árduo, mas frutuoso, a tal ponto dispõe nossas mentes à luz da contemplação e da vida, que é como que uma introdução e um certo começo da vida eterna.
  
(Extr. de "De Deo Uno", Desclée de Brouwer et Cie, Paris pp. 30-34. Tradução: PERMANÊNCIA)



quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O seguimento de Cristo



O cristão deve constantemente refletir se realmente está fazendo da sua vida um “seguimento de Cristo”, se está aberto a ouvir a Sua vontade e, dessa forma, busca realizá-la. Entretanto, continuando esse pensamento inicial, o que é ser Cristão? Bem, para essa questão pode haver respostas diferentes, adoto aqui a de minha predileção: ser cristão é conformar-se a Cristo, e conformar significa tomar a mesma forma; assim, ser cristão é buscar tomar a forma de Jesus em todas as situações. Sem dúvidas um grande desafio!

Pode-se tomar a forma de Cristo em situações simples e agradáveis do cotidiano, como na hora do almoço, vivendo a fraternidade em família; em uma conversa alegre entre amigos; em uma festa para celebrar o matrimônio de um casal querido, entre outras situações. Deve-se, porém, estar disposto a também tomar a forma de Cristo na cruz, entregando a Ele as próprias dificuldades, indo ao encontro do irmão que precisa de cuidado e atenção ou gastando e doando a vida por aqueles que dela necessitam. Dizia São João Bosco que nossa vida é um presente de Deus e o que fazemos dela é o nosso presente a Ele.

O seguimento de Cristo é descrito na doutrina tradicional sobre a vida interior e a experiência mística (vivência espiritual concreta), que aponta três etapas ou vias, as quais não são diversas, mas partes de um mesmo caminho, e o caminhar lembra conversão, visto que diariamente se percorre um itinerário de mudança e aperfeiçoamento, buscando conformar-se cada vez mais ao Mestre.

A primeira via de que se fala é a via purgativa, “se for bem entendida, a observância dos mandamentos é sinônimo da via purgativa: de fato significa vencer o pecado, o mal moral nas suas diversas formas; e isto leva a uma progressiva purificação interior” [1]. Trata-se da fase inicial, em que é necessário mais atentamente vigiar a si mesmo, haja vista a maior tendência às paixões, ao egoísmo e ao “hábito de pecado”.

Simultaneamente, com essa purificação, descobrem-se os valores mais elevados e passa-se então à via iluminativa. “Com efeito, os valores são luzes que iluminam a existência e, à medida que o homem se esmera a si próprio, brilham cada vez mais intensamente no horizonte da sua vida. Por isso, juntamente com a observância dos mandamentos – observância que tem primariamente um significado purificador – vão-se desenvolvendo no homem as virtudes” [1]. Desse modo, o indivíduo é guiado pelas virtudes que aprende e o seguimento torna-se mais natural, sem parecer grande esforço. “Com o passar do tempo, se o homem seguir com perseverança o Mestre que é Cristo, sentirá cada vez menos dentro de si o peso da luta contra o pecado e passará a gozar sempre mais da luz divina que penetra toda a criação” [1].

Por fim, surge a via unitiva, em que a alma experimenta uma especial união com Deus, “o homem encontra Deus em tudo, está em contato com ele em tudo e através de tudo. As coisas criadas deixam de ser um perigo para ele, como o eram sobretudo quando percorria a via purgativa; as coisas, e particularmente as pessoas, não só readquirem a luz própria que lhes conferiu o criador, mas de certo modo ‘tornam acessível’ – se assim se pode dizer – o próprio Deus no modo como Ele quis revelar-se ao homem, ou seja, como Pai, Redentor e Esposo” [1]. Realiza-se aquilo sobre o que o apóstolo Paulo falava: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” [2]. Certamente, não é fácil chegar a tal união; contudo, deve-se procurá-la sempre, principalmente através da vida de oração, da busca dos Sacramentos, em especial a Eucaristia e a Reconciliação (confissão), e de uma vivência coerente e autêntica em busca da Verdade, anunciando a boa nova de Cristo com a própria vida.

O Catecismo da Igreja Católica ensina, logo no início, que “o desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar” [3]. O que faz o ser humano superior a toda a criação não é tanto a sua razão, mas especialmente o fato de que ele é chamado para Deus, “o aspecto mais sublime da dignidade humana está nesta vocação do homem à comunhão com Deus” [4].

O seguimento de Cristo tem também uma dimensão existencial, implica certos compromissos e responsabilidades para quem quer segui-lo, aos quais se deve estar sempre disposto a abraçar, mesmo que apareçam calvários e cruzes, pois, como diz Santo Agostinho, “fizeste-nos para Vós e o nosso coração não descansa enquanto não repousar em Vós” [5]. O coração de cada ser humano está inquieto e só em Deus encontrará a plena realização da própria humanidade.


[1] João Paulo II. Memória e Identidade. Editora Objetiva;
[2] Gl 2, 20;
[3] Catecismo da Igreja Católica, 27. Editora Loyola;
[4] Constituição Pastoral Gaudim et Spes, sobre a Igreja no mundo atual;
[5] Santo Agostinho. Confissões I, 1,1. Editora Paulus.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Cantos de Amor à Mãe Igreja



Eis um belo texto do Cardeal teólogo Henri de Lubac. Detalhe importante: quando escreveu o livro Meditation sur l’Eglise” (Meditações sobre a Igreja, numa tradução livre para o português), na década de 1950, o então Padre Henri de Lubac estava sob voto de silêncio, o qual acolheu em total obediência e amor à Mãe Igreja, acusado injustamente de liberalismo teológico por alguns membros da própria Igreja (somente conhecendo o clima vivido naquela época pode-se compreender o fato). Mais tarde, compreendeu-se o equívoco e o Padre Henri de Lubac foi um dos principais consultores teológicos do Concílio Vaticano II, posteriormente feito Cardeal pelo Beato Papa João Paulo II. Sigamos o exemplo desse grande homem, no amor e na obediência à Santa Madre Igreja.
O texto foi retirado do site www.domhenrique.com.br , o qual recomendo a todos como excelente fonte de leitura. Deus vos abençoe e Maria vos proteja!
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O homem da Igreja ama a beleza da casa de Deus. A Igreja roubou seu coração. É sua pátria espiritual. É sua mãe e seus irmãos. Nada que lhe diga respeito deixa-lhe indiferente ou afastado. Ele se radica em seu solo; forma-se à sua imagem, integra-se na sua experiência; sente-se rico das suas riquezas. Tem consciência de participar por meio dela, e apenas por meio dela da estabilidade de Deus. Dela aprende como viver e como morrer. Não a julga, mas se deixa julgar por ela. Aceita com júbilo todos os sacrifícios por sua unidade.
O homem da Igreja ama o seu passado. Medita sobre sua história. Venera e explora sua tradição... Aceita o ensinamento do magistério como norma absoluta. Acredita simultaneamente que Deus nos revelou tudo, de uma vez por todas, no Filho e que, todavia, o pensamento divino adapta a cada época, na Igreja e mediante a Igreja, o entendimento do mistério de Cristo... E compreende, enfim, em qualquer circunstância, que não pode ser um membro ativo do corpo se não for antes de mais nada um membro submetido, dobrável e dócil à direção da cabeça. Não pretende, mesmo submetendo-se integralmente em tudo, trabalhar por conta própria à margem da comunidade. Não se reconheceria o direito de dizer-se homem da Igreja se não fosse acima de tudo e sempre, com absoluta sinceridade, seu filho... Ela não nos deu à luz para em seguida nos abandonar e deixar que cada um corra o seu risco: mas sim nos conserva e nos mantém unidos no seu seio materno. Nunca deixamos de viver do seu espírito, como as crianças encerradas no seio materno vivem da substância da mãe. Todo católico autêntico nutre para com ela um sentimento de terna piedade. Gosta de chamá-la com o título de “mãe”, título saído do coração dos seus primeiros filhos, como os textos da antiguidade cristã testemunham abundantemente. Todo católico verdadeiro proclama com São Cipriano e Santo Agostinho: Não pode ter Deus como pai quem não tenha a Igreja como mãe...
Seja, portanto, louvada essa grande Mãe, pelo mistério divino que nos comunica, introduzindo-nos nele através da dupla porta, constantemente aberta, da sua doutrina e da sua liturgia! Seja louvada pelo perdão que nos assegura! Seja louvada pelos focos de vida religiosa que suscita, que protege e cuja chama mantém viva! Seja louvada pelo universo exterior que nos desvela e em cuja exploração nos guia! Seja louvada pelo desejo e a esperança que cultiva em nós! E louvada seja inclusive por tudo aquilo que ela desmascara e dissipa nas nossas ilusões, para que a nossa adoração seja pura! Louvada seja essa grande Mãe!
Mãe casta, nos infunde e conserva em nós uma fé sempre íntegra, que nenhuma decadência humana, nenhum envelhecimento espiritual, por mais profundo que seja, pode manchar. Mãe fecunda, não cessa de nos dar novos irmãos por meio do Espírito Santo. Mãe universal, cuida igualmente de todos, dos pequenos como dos grandes, dos ignorantes como dos sábios, do humilde povo das paróquias como da grei eleita das almas consagradas. Mãe venerável, nos garante a herança dos séculos e tira do seu tesouro coisas antigas e novas. Mãe paciente, recomeça a cada dia sem se cansar a sua obra de lenta educação e reconstrói, um por um, os fios da unidade que os seus filhos continuam rompendo. Mãe atenta, nos protege contra o Inimigo, que ronda em nossa volta procurando nos desmembrar. Mãe amorosa, que não nos dobra sobre si mesma, mas nos lança ao encontro de Deus, que é todo amor...
Sê louvada, ó Mãe do belo amor, do temor salutar, da ciência divina e da santa esperança! Sem ti, nossos pensamentos permanecem esparsos e flutuantes: tu os ligas em um feixe robusto. Tu dissipas as trevas em que alguém treme, se desespera ou, mesquinhamente, retalha sob sua medida, o romance do infinito. Sem nunca nos desencorajares , nos proteges dos mitos enganadores, nos poupas o desencaminhamento e o desgosto de todas as igrejas feitas por mãos de homem. Tu nos salvas da ruína em presença de nosso Deus! Arca vivente, porta do Oriente; Espelho imaculado da atividade do Altíssimo! Tu, que és amada pelo Senhor do universo, iniciada em seus segredos e que nos instruis sobre aquilo que lhe agrada! Tu, cujo esplendor espiritual, nos piores momentos, não nos ofusca! Tu, graças a quem a nossa noite é banhada de luz! Tu, por quem todo dia o sacerdote sobe ao altar do Deus que renova a sua juventude! Sob a escuridão do teu manto terrestre, a glória do Líbano está em ti. Tu nos dás todo dia aquele que unicamente é a vida e a verdade! Por ti temos a esperança da vida. Tua recordação é mais doce que o mel e aquele que te escuta nunca conhecerá a confusão. Mãe santa, mãe única, mãe imaculada! Ó grande Mãe! Santa Igreja, verdadeira Eva, a única verdadeira Mãe dos viventes! (Meditation sur l’Eglise)

domingo, 25 de dezembro de 2011

O Verbo Divino se fez carne




“Doente, nossa natureza precisava ser curada; decaída, ser reerguida; morta, ser ressuscitada. Havíamos perdido a posse do bem, era preciso no-la restituir. Enclausurados nas trevas, era preciso trazer-nos à luz; cativos, esperávamos um salvador; prisioneiros, um socorro; escravos, um libertador. Essas razões eram sem importância? Não eram tais que comoveriam Deus a ponto de fazê-lo descer até nossa natureza humana para visitá-la, uma vez que a humanidade se encontrava em um estado tão miserável e tão infeliz?” [1]

O homem moderno, em profunda crise de fé, coloca sobre si mesmo um fardo pesadíssimo, um peso insuportável para ser carregado sozinho, vive no escuro, tateando para encontrar um caminho, um sentido. Para o cristão consciente, o caminho e o sentido já lhe foram dados e o fardo insuportável lhe foi tirado das costas, isso porque o Verbo Divino se fez carne, abaixou-se livremente até a nossa condição e veio nos redimir. Em latim, Et Verbum caro factum est; no grego, o “Verbum” torna-se o “Logos”, literalmente traduzido por sentido: O sentido se fez carne e habitou entre nós. Alegrem-se todos os cristãos, Cristo é o nosso sentido! “Já antes de fazermos sentido da nossa parte, existe sentido. Ele nos abraça. Nós nos apoiamos nele. O sentido não é uma função da nossa ação, mas a condição que a torna possível.” [2]

É belíssimo pensar em tão admirável intercâmbio entre nós e Deus, este vem assumir nossa humanidade e nos transmitir a sua divindade. Cada um de nós tem vocação divina, não para ser ídolo e se colocar no lugar de Deus, mas para juntar-se a Ele na glória do céu, esse é o Seu desejo, ao qual precisamos corresponder na humildade e abertura de coração.

Originalmente, a manjedoura é o lugar em que se coloca o alimento dos animais no estábulo. Nosso Salvador dignou-se nascer em uma manjedoura, prefigurando já sua Páscoa, sua entrega por cada um de nós no sacrifício da cruz, que é um só com o sacrifício eucarístico. É Jesus quem está diante de nossos olhos a cada Santa Missa, devemos suplicar incessantemente: “Senhor, eu creio em ti, mas aumentai a minha fé”, para aí podermos dizer, de todo coração, diante de Jesus Eucarístico: “Eu creio que tu estás substancialmente presente em corpo, sangue, alma e divindade sob o véu do pão e do vinho”. Assim poderemos viver e compreender a encarnação, o natal de nosso Senhor Jesus Cristo.

Nesse natal, com Santo Agostinho, digamos verdadeiramente: “Ó meu Deus, tu te dás e te entregas a mim. Eu te amo. E, se ainda é pouco, faze que eu te ame ainda mais. Não posso medir para saber quanto me falta de amor, que seja suficiente para que a minha vida corra para os teus braços e daí não se afaste (...).” [3] Não nos deixemos ofuscar por tantas luzes exteriores, mas voltemo-nos para Aquele que é a verdadeira luz e quer ser levado por cada um de nós para iluminar o mundo.

“Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, objetos da benevolência divina.” [4]

Peçamos a intercessão de Maria, que gerou o menino Jesus em seu ventre, para que ela possa gerá-Lo também em nossos corações.

Nesse último texto do ano, quero agradecer a todos que leram e compartilharam o blog Amor e Missão, o qual tem o único objetivo de levar a luz de Cristo ao mundo e assim realizar o natal em quantos corações for possível, para a maior glória de Deus. Feliz Natal a todos!

 [1] São Gregório de Nissa. Catecismo da Igreja Católica, 457.
[2] Bento XVI. Dogma e Anúncio. Editora Loyola.
[3] Santo Agostinho. Confissões. Editora Paulus.
[4] Lc 2, 14.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Reflexões sobre a Santa Inquisição




“Talvez não haja nos Estados Unidos uma centena de pessoas que odeiem a Igreja Católica, mas há milhões de pessoas que odeiam o que erroneamente supõem que seja a Igreja Católica.” Fulton Sheen, arcebispo americano

Este texto nasceu da seguinte pergunta, que me foi dirigida há algum tempo: qual o posicionamento da Igreja sobre a Inquisição? A Inquisição foi uma instituição bastante complexa e sua atuação diferiu conforme o período. Falar dela em um pequeno espaço é um grande desafio; contudo, tento enfrentá-lo.

Inicialmente, deve-se ter honestidade histórica, ou seja, procurar analisar um período segundo a mentalidade das pessoas da época, não com a que temos hoje. Analisar um texto fora do contexto é pretexto para denegrir a imagem da Igreja. É impossível compreender corretamente a Inquisição sem mergulhar no contexto histórico e cultural da época. Mesmo a Enciclopédia Iluminista francesa, de 1765, embora abertamente anticlerical (o que se percebe pelas palavras usadas), atestou o exagero nos ataques à Inquisição:

“Sem dúvida, imputaram-se a um tribunal, tão justamente detestado, excessos de horrores que ele nem sempre cometeu; mas é incorreto se levantar contra a Inquisição por fatos duvidosos e, mais ainda, procurar na mentira o meio de torná-la odiosa.”

Veja que, mesmo os Iluministas, que berçaram a perseguição e a difamação à Igreja como as vemos hoje, reconhecem os exageros. Creio que o testemunho dos próprios inimigos da Igreja tenha grande valor.

Passemos então a analisar alguns pontos:

1. Durante a Idade Média, o que havia de mais importante na vida das pessoas era a fé, algo logicamente estranho para os povos atuais. Estabeleceu-se o fenômeno a que chamamos Cristandade, todos os setores da vida buscavam seguir e obedecer aos ideais cristãos, dos quais a Igreja era a guardiã (lembre que não havia ainda protestantes da forma que compreendemos hoje, o Cristianismo era um só até o início do século XVI).

2. A Inquisição teve origem com a população e com reis, não com a Igreja. Algumas heresias estavam crescendo rapidamente, entre elas a dos Cátaros, os quais eram maniqueístas (gnósticos), ou seja, acreditavam em um Deus do bem criador da alma e em um Deus do mal criador do corpo, de forma que praticavam comumente o suicídio para se livrar da matéria corporal (chama-se “endura” a esse suicídio). Com esse pensamento, matavam também mulheres grávidas de formas cruéis. Eram também saqueadores e violentos, invadindo e queimando vilas, feudos e cidades emergentes. Diante disso, a própria população e os reis estavam matando os hereges sem nenhum critério ou julgamento, até mesmo sob protesto de vários bispos. Devido ao clamor popular, que reclamava da demora da Igreja em agir, e dos abusos que estavam sendo cometidos, foi instaurado o Tribunal da Santa Inquisição.

Ademais, vale ressaltar a ingerência dos imperadores na esfera eclesiástica (os imperadores da época tentavam constantemente submeter o poder do Papa), cite-se, como exemplo, Frederico II, que tentou submeter a Igreja para usá-la conforme seus objetivos de poder. Assim, a instituição da Inquisição também teve como intenção impedir a prática de crimes políticos em nome da Igreja. Essa tentativa de usar a Igreja para alcançar objetivos próprios obteve êxito séculos mais tarde em Portugal e na Espanha, onde a Inquisição passou a ser, na prática, completamente dominada pelos reis.

3. A Inquisição só julgava católicos, se foi usada contra não-católicos (os reis fizeram isso, visando a interesses eminentemente políticos), foi à revelia e contra as orientações da Igreja.

4. Os responsáveis da Igreja pela Inquisição eram principalmente os franciscanos e os dominicanos, homens de preparo e prestígio, duas ordens tidas em alta consideração e seriedade até hoje. Vale ressaltar que muitos dos inquisidores foram inclusive canonizados, ou seja, são homens de santidade declarada. Sabe-se como é rigoroso um processo de canonização.

O Historiador americano, protestante, Charles H. Lea, em seu livro “Histoire de L’Inquisition au moyen age”, diz o seguinte:

“A Inquisição não foi uma instituição arbitrariamente concebida e imposta ao mundo cristão pela ambição e pelo fanatismo da Igreja. Foi antes o produto de uma evolução natural, poder-se-ia quase dizer necessária, das diversas forças de ação no século XIII. Os inquisidores se preocupavam muito mais em converter os hereges do que em fazer vítimas... Estou convencido de que o número de vítimas que pereceram na fogueira é muito menor do que se julga ordinariamente. Entre os modos de repressão empregados em consequência das sentenças inquisitoriais, a fogueira foi relativamente o menos usado.”

A Inquisição também salvou muitas pessoas, as quais, se julgadas pelo poder civil, fatalmente seriam mortas sem mesmo gozar da oportunidade de julgamento.

5. A Inquisição foi um avanço no que se refere ao Direito Penal, trazendo garantias jurídicas aos acusados até então inexistentes. Ainda eram usados pelos tribunais civis os “Juízos de Deus” (ordálios), herança dos bárbaros germânicos que o Cristianismo combateu duramente: neles havia a prova de fogo ou a prova da água, nesta o acusado era submetido à água fervente, acabando por confessar, culpado ou não. Como exemplo de avanços, pode-se apontar a possibilidade do perdão da pena; a tortura era regulamentada, ou seja, limitada (na época era altamente normal e usada desmesuradamente pelo pode civil na maioria dos tribunais europeus), de forma que não se podia derramar sangue ou deixar o indivíduo desacordado, era usada em último caso e, se o indivíduo confessasse, teria que confirmar a mesma confissão posteriormente, sem que estivesse sob tortura, senão não seria válida; as prisões eclesiásticas eram mais estruturadas e humanas do que as prisões civis normais, entre outros avanços.

A Igreja em si não condenava ninguém à morte diretamente, apenas aplicava penas espirituais e algumas outras penas corporais, estas foram gradativamente sendo abolidas com o passar do tempo. O que ela fazia, quando o herege era contumaz, ou seja, não se arrependia, era relaxá-lo ao braço secular (condenação indireta, pois sabia que, entregando às autoridades seculares, o indivíduo seria morto). Dessarte, ela não pronunciava ou executava uma sentença de morte, embora a aceitasse, isso no contexto jurídico da época. Isso cabia ao Estado; à Igreja não era lícito derramar sangue.

O historiador Giacomo Martina afirma que “as condenações à morte foram relativamente raras; pode-se falar de um percentual aproximado de 5% em relação aos processos levados até o final”. Um número muito abaixo do que se costuma divulgar nas escolas e universidades, onde se fala em milhões de mortos.

6. Obviamente, não se pode negar que houve abusos na utilização desse tribunal, sabe-se que havia membros do clero altamente corrompidos e indignos do cargo que exerciam, além do que, a partir do século XV, aproximadamente, a Inquisição ficou, na verdade, principalmente sob o controle dos reis. Muitas vezes o pode civil ultrapassou o eclesiástico para eliminar adversários políticos usando a Inquisição. Em Portugal, ela só acabou no século XIX e se chamava Inquisição RÉGIA (note o adjetivo).

7. Também houve inquisição protestante, por parte de todos eles (Anglicanos, Calvinistas, Luteranos etc).

O principal órgão administrativo de Calvino era o Consistório, composto por pregadores e anciãos, aos quais competia vigiar pela pureza da fé, inquirir os suspeitos e julgá-los.

Em 1525, Lutero assim escreveu em sua “Carta Aberta sobre o Livro contra os Camponeses”:

“Se acreditam que esta resposta é demasiadamente dura e que seu único fim é fazer-vos calar pela violência, respondo que isto é verdade. Um rebelde não merece ser contestado pela razão porque não a aceita. Aquele que não quer escutar a Palavra de Deus, que lhe fala com bondade, deve ouvir o algoz quando este chega com o seu machado (...) Não quero ouvir nem saber nada sobre misericórdia.”

Note que o pensamento protestante extrapolava a esfera do julgamento de hereges e buscava até mesmo converter à força os que não compartilhavam sua fé, o contrário das orientações dadas à Inquisição Católica.

Assim, atesta-se que a Inquisição não foi exclusividade da “Igreja Católica malvada”, mas fruto do pensamento e do contexto da época.

8. Veja o argumento de Santo Tomás de Aquino sobre a Inquisição, serve para vermos como raciocinavam os homens daquele tempo. NÃO SE PODE ANALISAR A INQUISIÇÃO COM A MENTALIDADE DE HOJE. O SÉCULO XX MATOU MUITO MAIS PESSOAS NAS GUERRAS E NOS REGIMES TOTALITÁRIOS (FALA-SE EM 100 MILHÕES DE VÍTIMAS SÓ NOS REGIMES COMUNISTAS) DO QUE TODA A INQUISIÇÃO, PORTANTO NÃO TEM MORAL PARA FALAR DELA: “É muito mais grave corromper a fé, que é a vida da alma, do que falsificar a moeda que é um meio de prover à vida temporal. Se, pois, os falsificadores de moedas e outros malfeitores são, a bom direito, condenados à morte pelos príncipes seculares, com muito mais razão os hereges, desde que sejam comprovados tais, podem não somente ser excomungados, mas também em toda justiça ser condenados à morte” (Suma Teológica II/II 11,3c).

9. A Inquisição foi uma instituição necessária para a sua época, não fosse ela, talvez não tivéssemos a sociedade avançada e desenvolvida que temos hoje, a qual nos traz inúmeros benefícios científicos, tamanho o avanço das heresias e de suas idéias (relembre-as no início do texto e procure aprofundar-se sobre) e a corrupção de muitos membros da Igreja.

10. Em 1998, o Vaticano fez um simpósio sobre a Inquisição, para o qual convocou 30 renomados historiadores católicos e não-católicos, oportunidade em que investigaram, de forma séria e o máximo possível imparcial, o que realmente ocorreu, o que é mito e o que é realidade. Em 2000, o Papa João Paulo II pediu desculpas pelos erros DOS FILHOS DA IGREJA, que são humanos e, dessa forma, passíveis de erro.

Percebe-se então que a Inquisição não foi a instituição satânica que muitos historiadores, em especial os marxistas, insistem em dizer. A intenção dos filhos da Igreja era a melhor possível, evitar que almas fossem perdidas e proteger o bem mais valioso que existia, a fé, apesar de, infelizmente, ter havido abusos, principalmente por desobediência às próprias orientações dos Papas. É importante e aconselhável o aprofundamento no assunto, visto que a complexidade do tema não permite uma boa explicação em um curto texto.

Para concluir, cito o historiador Daniel Rops, vencedor do prêmio da Academia Francesa de Letras por sua obra sobre a história da Igreja:

“A Inquisição, mesmo tomada nos seus piores aspectos, nem se compara com os regimes totalitários modernos; as suas prisões não atingem os números dos campos de concentração, e as suas fogueiras são largamente ultrapassadas pelas câmaras de gás.” (Vol. III, p. 612)

Bibliografia utilizada e indicada:

Aquino, Prof. Felipe. Para entender a Inquisição. Editora Cleofas

                  Bernardino Garcia Gonzaga, João. A Inquisição em seu Mundo. Editora Saraiva